#15 Restaurante Burger King

Francisco Vieira de Campos

Projeto:2014 a 2015   Projeto de arquitetura e coordenação: Francisco Vieira de Campos, Arq.º (Menos é Mais – Arquitectos Associados, Lda.)   Colaboração: Cristina Maximino   Projetos de Especialidades:   _ Estruturas: Ferrumplus – Engenharia e Estruturas Metálicas, Lda. – Sílvio Nogueira, Eng.º  
Construção:2015 Volare, S.A.
Promoção:Iberking Restauração, S.A.
Áreas e parâmetros:Área bruta de construção: aprox. 400,00 m2

Da cidade
Fast food, slow city, a receita do espaço contínuo

Se a representação do centro da cidade é, por definição, a materialização do que é público, importa não esquecer que a condição central pressupõe diversidade funcional, inevitavelmente alavancada pela iniciativa privada. Num território cuja propriedade é maioritariamente municipal, a integração do restaurante Burger King reflete uma estratégia de atração de capitais privados, considerada necessária para garantir a dinamização do Parque da Maia e dos seus usos, através dos processos de consumo e das economias de aglomeração.

Nas imediações de um espaço-rótula da cidade, onde a cenografia das “portas-arco” assinala a “ritualização” da entrada no centro, do lado nascente, a partir da EN 107, a oportunidade do projeto do restaurante acontece no longo decurso de um dossier urbanístico complexo – a Zona Desportiva da Cidade.

Curiosamente, corresponde a uma componente programática que sobreviveu ao abandono de um projeto anterior ao Parque da Maia, que, para suprir a necessidade de financiamento que o programa Norte 2020 mais tarde veio garantir, previa, como contrapartida da disponibilização de solo para aproveitamento imobiliário, a execução do grande quarteirão-desportivo-parque-da-cidade, com uma “praça maior” conformada por novas arquiteturas direcionais.

O restaurante é precisamente a expressão da integração da dimensão privada na promoção pública da condição central. O recurso à contratualização da concessão de solo estabelece o “suporte” em que as forças privadas intervêm ou são chamadas a intervir, chegando, inclusivamente, a participar ativamente na execução do espaço público e das suas infraestruturas.

A continuidade das intervenções, contudo, não poderia resultar senão do diálogo entre interesses públicos e privados – diálogo jamais possível com um projeto meramente franchisado, isto é, que não tivesse em conta as especificidades do lugar, e em que a forma da cidade se tivesse de submeter à forma da arquitetura, em vez do contrário. Fast Food, sim, mas slow city – é assim o projeto do Burger King, não tanto na perspetiva de que a construção das formas não pode ser rápida, ou estandardizada, mas sobretudo naquela em que o processo na origem dessas formas não é replicável em todos os lugares, apesar de formulado para um lugar abstrato. O projeto é – e só pode ser – uma receita específica para uma cidade concreta.

Da arquitetura
Desalinhado do modelo, apesar da brand

O edifício encontra-se implantado num local movimentado, no encontro da Avenida Dom Manuel II com a Avenida Altino Coelho, num dos extremos norte da Zona Desportiva da Cidade.

O projeto e a construção foram desenvolvidos há pouco mais de seis anos. Na forma construída é notório um claro desalinhamento em relação a qualquer outro restaurante da conhecida cadeia de fast food. Neste caso, o modelo padronizado da marca não foi aplicado, colocando de parte a possibilidade da mera collage desabrida de um “projeto de gaveta” made in USA na Maia.

O restaurante é, antes de mais, um exercício de grande consciência da intervenção num local muito específico. Pois, no processo de investigação da forma, existem sinais de uma vontade de controlar a escala do volume baixo no imenso espaço vazio envolvente. Sob esta máxima, nos desenhos de estudo da primeira solução são explícitas duas intenções fundamentais que provavelmente foram essenciais para a identidade da forma construída: 1) a ideia de um grande volume bipartido horizontalmente, onde a faixa do rés-do-chão é a ausência de massa construída, e a faixa superior é o coroamento estriado, como uma massa que está suspensa sobre o piso térreo; 2) depois, sem menosprezar o necessário circuito do drive thru, o posicionamento do volume no terreno cimeiro junto à rotunda, mas tendo sempre subjacente uma espécie de modulação / modelação que se expandia para o território exterior a sul e, simultaneamente, o estruturava.

A segunda solução, apesar de rever radicalmente o posicionamento das duas zonas funcionais mais significativas (1. cozinha / armazém / sanitários; 2. sala de refeição)e de redefinir a geometria planimétrica da faixa superior (pala), preservou um conjunto de elementos essenciais que garantem a identidade sui generis do restaurante. Para além disso, definiu com maior precisão a construtividade da forma – assume a formalidade da pré-fabricação com pormenores-tipo que evidenciam a racionalidade das soluções construtivas e, simultaneamente, a continuidade da pesquisa centrada na “pele” (chapa metálica trapezoidal) já desenvolvida na unidade industrial da Inapal Metal, em Palmela. 

O Restaurante Burger King mostra-se como um objeto bem pormenorizado, em que a aparência e disposição dos vários componentes são, de facto, essenciais para a significação da forma-total. O edifício exprime a qualidade do que é feito à medida para um local muito específico e, inclusivamente, sem menosprezar a origem da brand, com um certo design aerodinâmico, inspirado nos classic dinner americanos dos 50’s.

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