Introdução

No contexto da recente celebração dos 500 anos do Foral da Maia, o Mês da Arquitetura da Maia 2021 propõe uma narrativa, entre muitas possíveis, da construção da cidade da Maia e do seu centro, ou seja, do lugar ou dos lugares em que os efeitos de concentração das atividades humanas, da urbanização e das arquiteturas adquiriram, nas últimas décadas, maior expressão.

Trata-se de uma visão configurada através de um conjunto de 17 obras de arquitetura que, em si próprias, e, através das relações que estabelecem entre si e com a cidade, são capazes de explicar ou, pelo menos, testemunhar alguns dos principais processos da transformação urbana ocorrida, em particular, nos últimos sessenta anos.

Privilegia-se a diversidade de formas arquitetónicas e de programas, de escalas e de sistemas construtivos, mostrando a complexidade da disciplina da arquitetura e da sua prática.

Para além da arte, da técnica, dos desenhos, do virtuosismo dos autores, da obra realizada, esta exposição pretende evidenciar o processo do fazer arquitetura – o imenso e extraordinário labor dos que a criam e constroem, umas vezes com maior atenção mediática, outras no silêncio do anonimato. Em contínua mutação, a cidade é feita de milhões de vidas, ações, decisões, formas, materiais e vontades, que se traduzem fisicamente em construções e arquiteturas.

A organização da exposição permite uma dupla leitura – do objeto no contexto urbano em que se integra e, depois, do objeto em si mesmo, com referências complementares e, tendencialmente, hipertextuais. Cada obra é apresentada como uma estação expositiva organizada em dois planos interdependentes – um sobre suporte vertical (paredes) e outro sobre suporte horizontal (mesas).

Nos painéis horizontais apresentam-se desenhos, textos e memórias descritivas, fotografias, esquissos e outros documentos do processo e do projeto da obra, extraídos dos arquivos municipais e/ou cedidos pelos projetistas / gabinetes (incluindo documentos originais e reproduções), representando diversos momentos e metodologias de conceção ou de formalização projetual.

No plano vertical, cada módulo expositivo compreende três painéis: o primeiro contém uma fotografia de grande dimensão representativa da obra; o segundo painel inclui um texto crítico de enquadramento urbano nos processos de construção da cidade, ensaiando alguns temas ou conceitos que as obras evidenciam ou permitem questionar; o terceiro e último painel integra, por sua vez, um pequeno ensaio de exploração arquitetónica. Os dois textos são complementados e informados com fotografias tiradas expressamente para a exposição, refletindo a situação atual das arquiteturas e evidenciando alguns dos conteúdos textuais.

No espaço da exposição, cada uma das obras selecionadas constitui uma estação autónoma, interligada com as restantes numa leitura articulada e sequencial, contando a história da cidade real e também algumas histórias das suas possíveis alternativas, que não chegaram a ser construídas.

A narrativa proposta para a interpretação da cidade da Maia e do seu centro não configura uma visão histórica ou cronológica mais ou menos contínua. A seleção de obras foi, antes, estabelecida a partir de uma conceção intencional que aborda a forma da cidade e das arquiteturas em função de um conjunto de temáticas consideradas cruciais para a identidade urbana da Maia, para a sua caracterização e para a identificação de coerências e relações morfológicas no território.

O fio condutor não é o tempo, mas a transformação do espaço através das arquiteturas e dos seus processos. Apesar da multiplicidade de situações selecionadas, a leitura dos processos da arquitetura na cidade é apresentada em três dimensões distintas, mas complementares, que ajudam a explicar, precisamente, a narrativa proposta, distribuídas, respetivamente, por três galerias expositivas:

FUNDAÇÃO: a fundação da cidade, do centro.

CONSOLIDAÇÃO: o centro e os processos de preenchimento e reforço da edificação e urbanização.

CONEXÃO: a ligação do centro da cidade com o território metropolitano.

Como Calvino adverte, qualquer descrição da cidade é insuficiente para a explicar. Esta é, ainda assim, uma tentativa de compreender a Maia, deixando um registo para o futuro e um contributo para o discurso que cada um possa fazer da cidade, a cidade que se repete diante de nós, e que, quase sempre, não vemos. Não vemos com os olhos da curiosidade que tudo liga.

“A cidade é redundante: repete-se para que haja qualquer coisa que se fixe na mente. (…)

A memória é redundante: repete os sinais para que a cidade comece a existir.”

CALVINO, Italo, “As Cidades Invisíveis”, trad., 1972

Da cidade

Cidade não é o contrário de campo. Urbano não está nos antípodas de rural. E nenhum destes conceitos é estável, no sentido em que traduzem realidades diferentes e variáveis, no tempo e no espaço. Na diversidade, todas as cidades repetem a mesma matriz estrutural – o lugar das trocas e do conhecimento, a presença das pessoas, a representação do poder, a posição estratégica numa rede de fluxos relativamente a outras cidades e territórios de influência.

No fim do século XIX, a Maia não apresentava nenhuma aglomeração significativa. Só com o desenvolvimento verificado depois da elevação à categoria de vila, em 1902, se pode falar na existência de um primeiro esboço de centro administrativo. Na década de 50, a densificação do centro já tem expressão, potenciada pela interseção da antiga estrada Porto-Braga (EN 14) com o traçado incompleto da EN 107, que garantia a ligação de Leça de Palmeira e do porto de Leixões a Baguim do Monte (antigo Anel Externo do Porto). É este o contexto de partida para uma abordagem interpretativa da explosão da cidade da Maia e do seu centro.

O desenvolvimento das cidades, que decorre dos processos de instalação e evolução de uma determinada comunidade / sociedade num território específico, tem uma expressão física, gera formas construídas. Formas que, não sendo gratuitas e incoerentes, se constituem assim arquiteturas e que, no conjunto, determinam formas de maior escala, cidades, formas urbanas. A forma como dimensão estrutural da identidade dos lugares e dos elementos que neles existem: edifícios, praças, ruas, passeios, árvores, logradouros, galerias e arcadas, alinhamentos, malhas, texturas, cores, volumetrias, ornamentos, estátuas, percursos, quarteirões, torres, estradas…

Em “Thirdspace”, o geógrafo Edward W. Soja [1996] explica os processos de formação da “condição central” conjugando quatro conceitos que usualmente se sobrepõem: 1) “centropolis”, a definição do centro cívico e da presença das funções de topo; 2) “coroa cultural”, o conjunto das estruturas socioculturais e equipamentos; 3) “palimpsesto”, onde, como no pergaminho medieval, continuamente se reescreve, e que traduz os espaços da memória, a regeneração urbana, a construção sobre o construído; 4) por último, “panótico”, isto é, a existência de dispositivos e signos que referenciam e asseguram a legibilidade da condição central.

Muitas das obras da exposição constituem expressões concretas destes conceitos, isolada ou cumulativamente, pois os espaços da “condição central” precisam de símbolos, de ícones que catalisam os efeitos de polarização urbana. É a relação das formas das arquiteturas com a forma da cidade que suscita a narrativa proposta na exposição, que não se quer fechada, mas aberta à pluralidade das visões de quantos a visitem.

Da arquitetura

A arquitetura é uma atividade essencial para o homem, na medida em que, segundo Andrew Ballantyne, em What is Architecture? [2000], “faz parte da arte de viver e é mais bem-sucedida quando parece dar expressão à vida que a habita.”

A arquitetura é a expressão de uma síntese entre a necessidade e a liberdade. A necessidade justifica qualquer funcionalidade emergente, suscitando o ato pragmático de construir o abrigo no espaço. Por sua vez, a liberdade acontece pelo modo como o abrigo se pode constituir no espaço e definir estruturas organizadas e hierarquizadas através da matéria e da forma, potenciando importantes significados para a vida humana habitar o mundo. Deste modo, podemos referir que o abrigo é arquitetura quando manifesta a interdependência orgânica entre espaço, matéria, construção, forma e significado, pois, caso contrário, seria apenas construção ou, ainda, mera representação de formas vazias de função.

Qualquer forma arquitetónica é complexa, na certeza de ser constituída por várias partes interdependentes e, para além disso, por ser o resultado da interação de diferentes fatores. A composição final da forma é o resultado de muitas variáveis e algumas invariáveis articuladas no tempo em que ela demora a conformar-se no espaço, na realidade – desde a necessidade de construir o abrigo até à sua materialização no mundo físico. Portanto, e, utilizando as palavras de Kenneth Frampton [1995], “podemos afirmar que o construído invariavelmente surge da interação em constante evolução de três vetores convergentes: o lugar, o tipo e a tectónica.

Fazer arquitetura é uma ação fundamentada pelo intelecto e pelo pensamento projetante com o objetivo central de transformar a realidade. O projeto é, assim, algo indissociável do fazer arquitetura em qualquer contexto físico onde ela possa acontecer. Fazer arquitetura resulta do fazer projeto, porque é através dele, do seu processo, que a ideia se desenvolve e se fixa em documentos na investigação da forma arquitetónica e, consequentemente, objetiva a síntese necessidade-liberdade para determinado local concreto, como, por exemplo, o território urbano. Sob esta perspetiva, fazer arquitetura é também um processo de fazer cidade.

A exposição procura evidenciar esse fazer duplo, interdependente, e que, muitas vezes, é inequivocamente cumulativo entre o domínio do objeto e o domínio do contexto do território – urbano – onde esse mesmo objeto se integra. Por esse motivo, tornou-se fulcral que o grande suporte dos conteúdos da exposição fossem na maioria desenhos relevantes dos processos de projeto das obras selecionadas, capazes de sintetizar a(s) visão(ões) dos respetivos autores.